A HISTÓRIA DO CINEMA DE ARTE – DE FORTALEZA PARA O BRASIL

 

O nascimento do Cinema tem data e endereço: 28 de dezembro de 1895, Salão Grand Café, em Paris, com a exibição La Sortie de l’usine Lumière à Lyon (A Saída da Fábrica Lumière em Lyon), e, no ano seguinte, foi a primeiro em termos comerciais com L’Arrivée d’un train à La Ciotat (A Chegada do Trem na Estação). À frente estavam os irmãos Lumière, Auguste Marie Louis Nicholas Lumière (1862—1954), e Louis Jean Lumière (1864—1948)

Diz a História, que o Cinema de Arte surgiu na França, em 1904, por iniciativa dos irmãos Lafitte, com o objetivo de levar os intelectuais ao Cinema. Assim, foram produzidas adaptações de grandes obras literárias de autores como Charles Bauldelaire, Émile Zola, Victor Hugo, Gustave Flaubert, Honoré de Balzac, Molière, entre outros. O projetor, a criação dos irmãos Lumière (não verdade, o inventor foi Jean Boury, que perdeu a patente de seu invento), é a ciência que dá vida ao Cinema.

E os próprios Lumière não acreditavam muito no futuro da invenção. E, se viu, de repente, entre o processo de criação da arte e o processo de criação de uma indústria – neste, levado a cabo por George Mèlies (1861-1938), o primeiro produtor da História do Cinema, que queria conquistar as grandes plateias. Assim sendo, esses pioneiros defenderam os seus próprios ideais de Cinema, em correntes distintas. O Cinema francês traçou esse pioneirismo que se dividiu em 3 conceitos de Cinema – os quais se impõem até hoje.

Através dos tempos, estudiosos propuseram que o cinema de arte teria um cunho de “experimentações estéticas de um cinema de vanguarda”, na qual a ação seria predominada pela busca à reflexão, aproximando o homem de uma arte, na contracorrente da produção comercial endereçada às grandes plateias que apenas buscam, no Cinema, a diversão e o entretenimento. Este conceito de Cinema de Arte se alastrou pelo mundo, e, obviamente, chegou ao Brasil, no rastro de outro movimento notório, o cineclubista.

Darcy Costa (falecido em 1986), foi o pioneiro do cineclubismo no Estado do Ceará,   fundando, com um grupo de amigos críticos e apreciadores do Cinema – entre eles,   o jornalista e poeta Antônio Girão Barroso, Jairo Martins Bastos, Luiz Gonzaga  Horizonte, Frota Neto, Tancredo de Castro, Tavares da Silva, L. G. De Miranda Leão. Cláudioo de Sudou e Costa e Wilson Baltazar -, o Clube de Cinema de Fortaleza. Sediado no 4º andar de um prédio que, na rua Major Facundo, abrigava a Associação Cearense de Imprensa- ACI. O CCF foi o formado de diversos críticos, juntamente com outro pioneiro, Eusélio Oliveira (falecido em 1991), fundador da Casa Amarela – a qual, após a sua morte, recebeu o seu nome.

A História do Cinema de Arte começou em 1963, quando Darcy Costa, em encontro com Luiz Severiano Ribeiro (1886-1974), o pioneiro da exibição comercial no País, fundador do Grupo Cinemas Severiano Ribeiro, sugeriu a sua criação, que consistia em trazer para Fortaleza os filmes de arte que não chegavam ao Nordeste. Severiano topou e abriu duas “janelas”, uma sessão nas noites de sexta-feira (após a última sessão), e outra nas manhãs de sábados, na programação do Cine Diogo.

Um sucesso, principalmente se tornou instrumento de encontro entre intelectuais, universitários, profissionais de imprensa, entre outros. Mas, já naquela década, o CA se tornaria intermitente, trafegando ainda por outros cines do Grupo, como São Luiz e Samburá, depois rebatizado de Fortaleza. Ao longo das décadas de duas décadas, 60 e 70, o CA teve idas e vindas, fins e retomadas. Uma das mais bem sucedidas ocorre sob a direção de outro grande cearense, o publicitário Tarcísio Tavares (falecido em 2011), no período 1966-69, que o retomou na sala do Cine Familiar, no bairro Otávio Bonfim, tendo marcado a época. O reduto ali, foi da sociedade cearense.

Nesses 2 períodos de existência, o Cinema de Arte do Cine Diogo (1963/66) e do Cine Familiar (1967/69), exibiu filmes como Um Gosto de Mel (67), de Tony Richardson; A Mandragora (1965), de Albert Lattuada; Testemunha de Acusação (57), de Billy Wilder, Vidas Ardentes (1963), de Florestano Vancini; Fidelidade à Italiana (Itália, 66), de Dino Risi; e Obsessão de Sangue (Argentina, 1957), de Daniel Tinayre, afora M – o Vampiro de Dusseldorf (1931), de Fritz Lang; A Moça com a Valisa (61), de Valério Zurlini, Os Primos (1959), de Claude Chabrol, afora muitos outros. A exibição de Os Cafajestes (1962), foi condenada pelos frades da Igreja, já que o cinema pertencia a mesma, e, com a insistência de TT, o CA chegou ao fim.

Em 1981, o projeto foi retomado por Pedro Martins Freire, último “rebento” do Clube de Cinema de Fortaleza e exercia a crítica de cinema no jornal Diário do Nordeste, que agregou novamente Tarcísio Tavares. A programação, retomada no Cine Gazeta, no primeiro Shopping Center da cidade, o Center Um foi um sucesso e se difundiu por ao longo da década, formando a partir dali, gerações de cinéfilos.

Nos anos 80 e 90, fases áureas, os cinéfilos cearenses em formação pelo próprio CA puderam, finalmente, conhecer as criações do neo-realismo e da nouvelle vague que não tinham chegado a Fortaleza, além das obras em relançamento de dezenas de grandes cineastas – Visconti, Antonioni, De Sica, Bergman, entre outros. Em 1984, os filmes passaram a ser debatidos após as sessões das manhãs de sábado, congregando profissionais liberais, professores, intelectuais, estudantes. Ali, o CA criaria resistiria até 1993, quando a sala foi fechada.

Não demorou muito. Pedro aproveitou passagem de Ribeiro Neto (agora à frente do Grupo Severiano Ribeiro) pela cidade e definiram mais uma volta ao circuito em fevereiro de 1994, nos cinemas do Grupo no Shopping Iguatemi, com o drama biográfico Malcolm X (161), de Spike Lee, ocupando novamente as “janelas” das noites de sexta à noite e manhãs dos sábados. O “renascimento” virou acontecimento cultural, principalmente porque os debates foram retomados, em parcerias, a principal delas com a Organização Farias Brito, que passou a levar os seus alunos e professores do Ensino Médio para discutir os filmes.

Tanto, que a partir de 1995, o Grupo Severiano Ribeiro deu-lhe o status de “circuitinho”, estendendo-o em Natal, Recife, Maceió e Aracaju (posteriormente, Natal e Aracaju deixariam de funcionar). Mas, em 2003, em Fortaleza as exibições foram paralisadas em função da inauguração do complexo de 12 salas do grupo Severiano com o UCI, grupo estrangeiro que se instalava no Brasil.

A programação no Shopping Iguatemi foi retomada em 2004, consolidando o caráter regional, e em pouco virou ganhou uma Faixa Nobre, a sessão das 19h30 de segunda a sexta-feira, e, por fim, uma sessão aos domingos, às 12h10. Em dezembro de 2014 o CA terminou o seu ciclo no UCI Ribeiro nas cidades de Fortaleza, Recife e Maceió.

Com o rompimento, Luiz Gonzaga de Luca, Paulo Pereira e Eduardo Chang convidaram Pedro Martins Freire para retomar o Cinema de Arte na Cinépolis do Brasil, a operadora fundada no México em 1971 e desde 2010 no Brasil. O Cinema de Arte passaria a ser um projeto nacional para inserir os filmes de arte em seus complexos de shoppings.

Como projeto em desenvolvimento, o Cinema de Arte mantém inicialmente os mesmos horários anteriores e ocupa todas as Capitais nordestinas – São Luís, Fortaleza, Natal, Recife, João Pessoa e Salvador –, nas quais a Cinépolis se faz presente. A regionalização se amplia para as cidades do Norte, já estando em Manaus. Já ampliada para o estado de São Paulo, o CA está em Barueri/Alphaville, Jundiaí e Ribeirão Preto, onde terá abertura no próximo dia 24, no Shopping Santa Úrsula. Planejadamente, passará a ocupar as demais regiões do País, tornando-se um circuito nacional.

Concomitantemente, dois projetos passam a ser desenvolvidos, em Fortaleza: o Cinema-Escola, com a presença de alunos e pais das escolas de Fortaleza; e os debates do Cinema de Arte, lançado em 1984, e pioneiro na discussão de filmes na própria sala de cinema. Paulatinamente, também passarão a ser implantados estado por estado.

Vida longa e próspera ao Cinema de Arte da Cinépolis do Brasil.