Cinema de Arte:
42 anos de história, educação e cultura

“Rebelião no P.S.D. contra o Gôverno”. Esta era a manchete da edição conjunta de 10 e 11 de agosto de 1963 do Jornal O POVO. A oposição ao presidente João Goulart e a iminência de um golpe pelas forças militares eram sensíveis e se estendiam por boa parte das vinte e quatro páginas do jornal. Foi nesta edição que a coluna Cine Jornal (escrita semanalmente de 1962 a 1964 pelo jornalista Enondino Bessa) anunciou: “O dia de hoje é um dos maiores para todos os fãs de cinema de Fortaleza. É que nesta data se inaugura o ‘Cinema de Arte’”. Na manhã deste mesmo sábado, um dos projeto culturais de maior longevidade de Fortaleza nasceu no Cine Diogo, obtendo, de acordo com Bessa, “uma das maiores lotações de toda a sua história”.

Idealizado e realizado pelo cineclubista Darcy Costa (um dos fundadores do Clube de Cinema de Fortaleza, em 1948), o Cinema de Arte, em sua primeira fase, durou menos de um ano, até março de 1964. O breve período foi marcado pelo cinema da nouvelle vague. O primeiro filme a passar foi o francês Hiroshima, Mon Amour, de Alain Resnais. O belo e clássico caso de amor entre Hiroshima e Nevers - duas cidades personificadas nas personagens de um arquiteto japonês e uma atriz francesa -, aliado à ágil câmera de Resnais e aos diálogos pungentes da escritora Marguerite Duras, levou os fortalezenses a se abarrotarem nos 1.179 lugares da sala do Cine Diogo. Na semana seguinte, foi a vez de Os Incompreendidos, de François Truffaut. A ele, seguiram-se Uma Lição de Amor, de Ingmar Bergman, e Homens em Fúria, de Robert Wise.

Em 1966, o Cinema de Arte é retomado pelos cinéfilos Tarcísio Tavares e Maurílio Arrais. Ao lado da igreja da praça do bairro Otávio Bonfim, no chamado Cine Familiar, passa a funcionar a programação do Cinema de Arte, nas noites de segunda-feira. Cerca de dois anos depois, Darcy Costa retoma o projeto no Cine Diogo. Os horários passam a ser às sextas (noite) e aos sábados (manhã).

Em 1981, o Cine Gazeta, localizado no primeiro shopping center de Fortaleza, o Center Um, passa a ser o espaço do Cinema de Arte. Organizados e selecionados por Tarcísio Tavares e Pedro Martins Freire, os filmes passavam nos mesmos horários do Cine Diogo, somente acrescentando, depois, uma sessão às 20 horas, na sexta-feira. Em 1985, houve o início do que viria a ser um dos diferenciais do projeto: os debates pós-sessão. A idéia era usar o filme não só como entretenimento, mas que a fruição pudesse ocorrer em vários níveis. Ao haver o debate, os espectadores conseguiam ir além da passividade da sala de cinema, relacionando a obra em questão à conjuntura e à sociedade que os cerca. Faz-se mister destacar o debate após a apresentação do filme Missing (82), de Costa-Gavras, que reuniu ex-presos políticos e exilados que estavam no Chile, na época do golpe militar. No Cine Gazeta, o Cinema de Arte funcionou até 1993, com o fechamento da sala. Em 1994, o projeto passa a funcionar no São Luís Iguatemi. A organização, então, já é somente de Pedro Martins. Os horários mantiveram-se. O primeiro filme a passar nesta fase do projeto foi Malcom X, de Spike Lee. Nesse momento, os debates após os filmes ganham impulso e se tornam uma referência cultural. No São Luís Iguatemi, o Cinema de Arte funcionou até 2003, com o fechamento das salas.

Concomitante ao Iguatemi, em 1995 surgiu o Stúdio Beira-Mar, inaugurado como a primeira sala para filmes de arte do Norte/Nordeste. A programação ocupava o dia inteiro. O filme inaugural foi Ed Wood, de Tim Burton. Um projeto para modificar o perfil da exibição de filmes foi implantado. Foram criadas mostras de filmes – Mostra de Cinema de Fortaleza, Mostra de Filmes do Estação, Mostra do Cinema Independente – e de pequenas cinematografias, sempre abertas por produções nacionais. O Studio Beira Mar trouxe à Fortaleza a moda das pré-estréias nas noites de sábado, resgatou as sessões infantis matinais aos sábados e aos domingos e promoveu retrospectivas de cineastas - Bergman, Pasolini, entre outros – e de filmes, como a dos melhores exibidos no ano. O projeto foi encerrado em 1998.

Ainda em 1995, em parceria com o Grupo Severiano Ribeiro, o Cinema de Arte passou a programar sessões em outras três cidades nordestinas: Recife, Maceió e Natal, tendo se expandido e se consolidado como projeto de difusão cultural. Os filmes do Cinema de Arte ainda voltaram a ser visto no Cine Diogo e no Cine Fortaleza, durante a década de 1990.

Atualmente, em Fortaleza, o projeto funciona no North Shopping e no Multiplex UCI Ribeiro. Desde 2004, com a abertura destas salas, a programação do Cinema de Arte funciona no mesmo horário que o proposto por Darcy Costa, em 1968. Os debates também foram incorporados ao cotidiano do projeto atual. Desde 2005, o Cinema de Arte passou a ter sessões também de segunda à quinta, às 19h30, na chamada Faixa Nobre, do Multiplex. O projeto, atualmente, também funciona em Natal, em Maceió e em três salas de Recife.

     Em uma breve retrospectiva, pode-se dizer que o Cinema de Arte formou uma geração de cinéfilos, por meio da reapresentação de grandes criações como: King Kong (33), de Ernest B.Schoendsak e Meryan C. Cooper; Cidadão Kane (41), MacBeth, Reinado de Sangue (48), O Processo (62) e Verdades e Mentiras (75), de Orson Welles; Roma, Cidade Aberta (45), de Roberto Rosselini; Ladrões de Bicicleta (47), de Vittorio De Sica. O projeto ainda foi responsável pelo resgate de obras inéditas na cidade, como Desajuste Social (61) e Rogopag (63), de Pasolini, e pelo relançamento de obras importantes, como O Sétimo Selo (56), Morangos Silvestres (57) e Quando Duas Mulheres Pecam (69), de Ingmar Bergman; Saló, os Últimos dias de Sodoma (75), de Pasolini; Satyricom (69), de Fellini; Decameron (72), O Leopardo (63), de Luchino Visconti.

O Cinema de Arte também revelou novos cineastas, como Andrej Wajda, em O Homem de Mármore (76), Sem Anestesia (78), O Maestro (79), O Homem de Ferro (81) – obras que marcaram a luta polonesa pela liberdade e a criação do movimento político solidariedade – e As 200 Crianças do Dr. Korczak (90); Jean-Paul Rappeneau, em O Selvagem (76) e Que Figura, Meu Pai (82); Nicholas Roeg em A Longa Caminhada (71), Um Inverno de Sangue em Veneza, (73); Francesco Rosi, em Três Irmãos (80); Carmen (83) e Crônica de uma Morte Anunciada (87); Dalton Trumbo, em Johnny vai à Guerra (71); Andrei Tarkovsky, em Solaris (72) e Stalker (79); além de Peter Weir, em Gallipoli (81), e Bille August, em Pelle, o Conquistador (87), dentre outros.

O Cinema de Arte exibiu, também, os últimos trabalhos de vários cineastas, dentre eles Michelangelo Antonioni – O Passageiro: Profissão Repórter (75), O Mistério de Observald (80) e Identificação de uma Mulher (82); e Ingmar Bergman – Face a Face (76), O Ovo da Serpente (79), Da Vida das Marionetes (80) e Depois do Ensaio (84).

Podem ser registrados ainda os lançamentos de obras importantes, como: Kaos (84), dos irmãos Taviani; Lili Marlene (80), de Rainer Faabinder; Não Amarás (88), Não Matarás (89) e A Dupla Vida de Veronique (91), de Krzystoff Kieslowski, Ladrões de Sabonete (89) e Volere Volare (91), de Maurizio Nichetti; A Volta de Max Dugan (83), de Herbert Ross; Vozes Distantes (88), de Terence Davies; Declínio do Império Americano (86), de Denys Arcand; O Regresso Para Bountifull (85), de Peter Masterson.

Divaga-se bastante sobre a redundância da expressão “filme de arte” - e, portanto, sobre a expressão “Cinema de Arte”. Toda obra cinematográfica seria, por excelência, artística. O termo, entretanto, foi construído ainda sob influência frankfurtiana, indo ao encontro da crítica de Benjamim sobre a reprodutibilidade técnica e a comercialização como elemento artístico central. A demarcação do termo é, portanto, a explicitação da possibilidade de alternativa ao convencional (roteiros divididos em três momentos, personagens estereotipadas, câmeras que se limitam ao plano e contra-plano etc.).

O Cinema de Arte, portanto, surgiu com a proposta de ampliar o leque de filmes acessíveis ao grande público – sem cair na imobilidade do saudosismo. Se o projeto já trouxe Antonioni, Bergman e Welles, atualmente ele traz Majid Majidi, Carlos Sorin, Richard Linklater.

Sim, o Cinema de Arte tem cumprido o seu papel. Há 42 anos.

Natália Paiva
 
Copyright ©2004 Cinema de Arte
Site Design by Samir Elias - Todos os direitos reservados a Pedro Martins Freire