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Idealizado e realizado pelo cineclubista Darcy Costa (um dos fundadores do Clube de Cinema de Fortaleza, em 1948), o Cinema de Arte, em sua primeira fase, durou menos de um ano, até março de 1964. O breve período foi marcado pelo cinema da nouvelle vague. O primeiro filme a passar foi o francês Hiroshima, Mon Amour, de Alain Resnais. O belo e clássico caso de amor entre Hiroshima e Nevers - duas cidades personificadas nas personagens de um arquiteto japonês e uma atriz francesa -, aliado à ágil câmera de Resnais e aos diálogos pungentes da escritora Marguerite Duras, levou os fortalezenses a se abarrotarem nos 1.179 lugares da sala do Cine Diogo. Na semana seguinte, foi a vez de Os Incompreendidos, de François Truffaut. A ele, seguiram-se Uma Lição de Amor, de Ingmar Bergman, e Homens em Fúria, de Robert Wise.
Em 1981, o Cine Gazeta, localizado no primeiro shopping center de Fortaleza,
o Center Um, passa a ser o espaço do Cinema de Arte.
Organizados e selecionados por Tarcísio Tavares e Pedro Martins
Freire, os filmes passavam nos mesmos horários do Cine Diogo, somente
acrescentando, depois, uma sessão às 20 horas, na sexta-feira.
Em 1985, houve o início do que viria a ser um dos diferenciais
do projeto: os debates pós-sessão. A idéia era usar
o filme não só como entretenimento, mas que a fruição
pudesse ocorrer em vários níveis. Ao haver o debate, os
espectadores conseguiam ir além da passividade da sala de cinema,
relacionando a obra em questão à conjuntura e à sociedade
que os cerca. Faz-se mister destacar o debate após a apresentação
do filme Missing (82), de Costa-Gavras, que
reuniu ex-presos políticos e exilados que estavam no Chile, na
época do golpe militar. No Cine Gazeta, o Cinema de Arte
funcionou até 1993, com o fechamento da sala. Em 1994, o projeto
passa a funcionar no São Luís Iguatemi. A organização,
então, já é somente de Pedro Martins. Os horários
mantiveram-se. O primeiro filme a passar nesta fase do projeto foi Malcom
X, de Spike Lee. Nesse Concomitante ao Iguatemi, em 1995 surgiu o Stúdio Beira-Mar, inaugurado como a primeira sala para filmes de arte do Norte/Nordeste. A programação ocupava o dia inteiro. O filme inaugural foi Ed Wood, de Tim Burton. Um projeto para modificar o perfil da exibição de filmes foi implantado. Foram criadas mostras de filmes – Mostra de Cinema de Fortaleza, Mostra de Filmes do Estação, Mostra do Cinema Independente – e de pequenas cinematografias, sempre abertas por produções nacionais. O Studio Beira Mar trouxe à Fortaleza a moda das pré-estréias nas noites de sábado, resgatou as sessões infantis matinais aos sábados e aos domingos e promoveu retrospectivas de cineastas - Bergman, Pasolini, entre outros – e de filmes, como a dos melhores exibidos no ano. O projeto foi encerrado em 1998. Ainda em 1995, em parceria com o Grupo Severiano Ribeiro, o Cinema de Arte passou a programar sessões em outras três cidades nordestinas: Recife, Maceió e Natal, tendo se expandido e se consolidado como projeto de difusão cultural. Os filmes do Cinema de Arte ainda voltaram a ser visto no Cine Diogo e no Cine Fortaleza, durante a década de 1990. Atualmente, em Fortaleza, o projeto funciona no North Shopping e no Multiplex UCI Ribeiro. Desde 2004, com a abertura destas salas, a programação do Cinema de Arte funciona no mesmo horário que o proposto por Darcy Costa, em 1968. Os debates também foram incorporados ao cotidiano do projeto atual. Desde 2005, o Cinema de Arte passou a ter sessões também de segunda à quinta, às 19h30, na chamada Faixa Nobre, do Multiplex. O projeto, atualmente, também funciona em Natal, em Maceió e em três salas de Recife.
O Cinema de Arte também revelou novos cineastas, como Andrej Wajda, em O Homem de Mármore (76), Sem Anestesia (78), O Maestro (79), O Homem de Ferro (81) – obras que marcaram a luta polonesa pela liberdade e a criação do movimento político solidariedade – e As 200 Crianças do Dr. Korczak (90); Jean-Paul Rappeneau, em O Selvagem (76) e Que Figura, Meu Pai (82); Nicholas Roeg em A Longa Caminhada (71), Um Inverno de Sangue em Veneza, (73); Francesco Rosi, em Três Irmãos (80); Carmen (83) e Crônica de uma Morte Anunciada (87); Dalton Trumbo, em Johnny vai à Guerra (71); Andrei Tarkovsky, em Solaris (72) e Stalker (79); além de Peter Weir, em Gallipoli (81), e Bille August, em Pelle, o Conquistador (87), dentre outros. O Cinema de Arte exibiu, também, os últimos trabalhos de vários cineastas, dentre eles Michelangelo Antonioni – O Passageiro: Profissão Repórter (75), O Mistério de Observald (80) e Identificação de uma Mulher (82); e Ingmar Bergman – Face a Face (76), O Ovo da Serpente (79), Da Vida das Marionetes (80) e Depois do Ensaio (84). Podem ser registrados ainda os lançamentos de obras importantes, como: Kaos (84), dos irmãos Taviani; Lili Marlene (80), de Rainer Faabinder; Não Amarás (88), Não Matarás (89) e A Dupla Vida de Veronique (91), de Krzystoff Kieslowski, Ladrões de Sabonete (89) e Volere Volare (91), de Maurizio Nichetti; A Volta de Max Dugan (83), de Herbert Ross; Vozes Distantes (88), de Terence Davies; Declínio do Império Americano (86), de Denys Arcand; O Regresso Para Bountifull (85), de Peter Masterson. Divaga-se bastante sobre a redundância da expressão “filme de arte” - e, portanto, sobre a expressão “Cinema de Arte”. Toda obra cinematográfica seria, por excelência, artística. O termo, entretanto, foi construído ainda sob influência frankfurtiana, indo ao encontro da crítica de Benjamim sobre a reprodutibilidade técnica e a comercialização como elemento artístico central. A demarcação do termo é, portanto, a explicitação da possibilidade de alternativa ao convencional (roteiros divididos em três momentos, personagens estereotipadas, câmeras que se limitam ao plano e contra-plano etc.). O Cinema de Arte, portanto, surgiu com a proposta de ampliar o leque de filmes acessíveis ao grande público – sem cair na imobilidade do saudosismo. Se o projeto já trouxe Antonioni, Bergman e Welles, atualmente ele traz Majid Majidi, Carlos Sorin, Richard Linklater. Sim, o Cinema de Arte tem cumprido o seu papel. Há 42 anos. |
Natália
Paiva |
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